O que sou eu? O que eu faço?

– O que você faz? Você cozinha, né? – perguntou meu filho de 7 anos para completar um questionário da tarefa de Inglês. Ele precisaria entrevistar os pais e os avós. Eram somente quatro perguntas: “what do you do”, “is it difficult”, “do you use any technology in your job” e “do you speak English”.
– Sim, eu cozinho – eu respondi – mas espera ai – e fiquei pensando. Diante da minha hesitação, ele disse:
– Vou colocar “clean”, tá?
– Nãããoooo!!! – gritei e cheguei mais perto para ler as questões, como se elas fossem esclarecer minhas dúvidas.

O que eu faço?

Eu comecei a trabalhar cedo. Antes de completar 12 anos já estava empregada. Trabalhava como operadora de rádio amador numa empresa situada ao lado da minha casa. De segunda a sábado, das 18 às 21 horas. Você talvez esteja se perguntando o que exatamente eu fazia. Ou nem saiba o que seja (era) um rádio amador. Não preciso dizer que em 1988 ainda não existia celular e internet. Mas fazendas, ah, elas já existiam.

Quando o capataz, peão ou caseiro precisava falar com o proprietário da fazenda e vice-versa, eu entrava em ação. Através de alguns aparelhos uma ligação telefônica era conectada ao sinal de rádio e eu era uma das pessoas que ficava por traz dessa operação. Foram quatro anos. Sai da central de rádio no começo de 93, quando os horários da empresa mudaram e a carga horária escolar aumentou. Já estava no terceiro ano. Prestes a fazer o vestibular.

Meu sonho era ser arqueóloga, mas a UFMS (única universidade onde eu prestaria vestibular), na época, não contava nem com o curso de história. Teria de me contentar com os cursos existentes. Do funil escoaram jornalismo e ciência da computação. Sério!! Até que alguém “muito bem informado” me deu o seguinte conselho:
– Não precisa fazer computação, depois você faz um curso de informática que é a mesma coisa.
Bah, eu que nunca tinha visto um computador na minha vida, comprei a ideia na hora. E foi assim que aquela pessoa tímida decidiu-se pelo Jornalismo.

É estranho como as coisas acontecem, mas um estudante de ciência da computação se tornou meu namorado (e depois de muitos anos, meu marido) já no meu primeiro ano de faculdade. Até hoje me pergunto: e se eu tivesse escolhido este curso, será que teríamos iniciado namoro? Mas isso é assunto para outro post.

Era o florescer da internet no Brasil e em Campo Grande a grande rede brotava na UFMS. Logo meu namorado me ensinou a criar home pages. Sim, o HTML me fascinava. Então ele se formou e abriu uma empresa. Eu estava sempre junto, ajudando. Me formei em Jornalismo e nunca trabalhei na área. Bem, será que 15 dias contam? Trabalhei por duas semanas num jornal recém formado. Adorava! Fazia parte do caderno de Cultura e minha editora havia sido minha professora de redação na escola. Só que … o jornal fechou!

Entre 2002 e 2003 fiz uma pós graduação em Engenharia de Websites na UFMS pelo então DCT – Departamento de Computação e Estatística. Aprendi conceitos de Orientação a Objetos. Lindo! Banco de dados, Java, etc. O trabalho de conclusão de curso foi um sistema de genealogia baseado na Web. O que me deixou orgulhosa, no entanto, foi como a monografia ficou tão bem escrita!

Em 2004 nasceu minha filha e eu me dediquei ao ofício de ser mãe. Entretanto o fato de “não fazer nada” me incomodava. Não lembro de onde ou de quem surgiu a sugestão, mas ser uma consultora de beleza (vender cosméticos) era algo que não tomaria tanto meu tempo e poderia render lucros. Me aventurei, não muito longe, eu sei e foi uma experiência interessante.

Em 2008, quando meu segundo filho estava prestes a completar um ano, mergulhei novamente na tecnologia. A empresa do meu marido estava trabalhando num grande projeto. Programei muito. Era um sistema de controle de almoxarifado. Me envolvi desde o projeto até à programação. Me sentia útil e produtiva vendo a aplicação tomar forma e funcionar. Assim que o projeto terminou, já que o foco da empresa não era desenvolvimento, parei de programar.

A situação no momento permitia, então me dediquei ao serviço voluntário. Trabalhava em casa atendendo ligações e respondendo mensagens eletrônicas sanando dúvidas de usuários de uma organização genealógica. Esta experiência durou um ano, mas não deixei o voluntariado. Atualmente trabalho com moças de 12 a 17 ajudando-as e incentivando-as a desenvolverem talentos e aprenderem bons princípios, para que elas tenham condições de fazerem escolhas com responsabilidade.

Há alguns anos, levada pelo momento tecnológico, embarquei na onda das mídias sociais e marketing digital. E é o que estou fazendo no momento. Já tive alguns clientes que me renderam ótimas experiências com as redes sociais. Atualmente voltei para a empresa do meu marido, da qual sou sócia, e faço um pouco de tudo.

Além disso, já fui pesquisadora do DataFolha enquanto era universitária, já dei aula para alunos de ensino fundamental e médio, já tive uma loja de roupas. Sou rato de academia,sou antenada em alimentação saudável (e tento aplicar tanto quanto a família permite), canto em um coral, toco um pouco de violão. E, sim, limpo, lavo, passo e cozinho!

Então quando acontece aquele estranho momento em que me perguntam o que eu faço, normalmente eu paro pra pensar. Um título não me define. Uma profissão não descreve minhas competências. Uma formação não revela tudo que eu sei. Na resposta à questão da tarefa do meu filho, depois de gastar um pouco de grafite e borracha por algumas vezes … nossa, não lembro mais o que deixei ele escrever.

6 comentários sobre “O que sou eu? O que eu faço?

  1. Você não me surpreendeu nem um pouquinho. Sempre soube da sua inteligência, competência aliada a difícil tarefa de ser dona de casa. Não fala nem em ser mãe de dois e, esposa. Te admiro muito filha e amo o que vc escreve. Está tão bem escrito que é possível ver “a cena”! Parabéns e continue escrevendo. Bjs

  2. Estava precisando mesmo ler algo que me servisse de inspiração, estou no 3°ano do ensino médio, e ainda não decidi que curso seguir. Achei sua história maravilhosa, e você escreve muito bem, obrigada pela inspiração!

    • Oi Lara!! Obrigada!! Então, você está nessa encruzilhada da vida que me referi no texto. Mas tenho certeza que vc tem mais informações e insumos pra fazer sua escolha do que eu tinha naquela época. Se precisar de alguma ajuda, estou às ordens. 😉

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